Há quanto tempo não te escrevo.
Você me disse que queria ler algo
que eu tinha escrito há uns anos. Quis escrever algo para você. Sinto que mesmo
que seja escrito em um site fantasma da internet vamos conseguir ter uma
comunicação melhor do que a Alemanha nos permite.
Nossas últimas ligações foram
péssimas.
Por aqui tenho estudado muito. Lido muito Clarice. Aquela Clarice que
até pouco tempo eu dizia ser hipervalorizada. Acho que eu não a compreendia. Não
compreendia o sentimento adulto que ela exalava de forma exagerada.
Tenho
trabalhado muito também e tem sido uma fase muito difícil. Do trabalho que me
remunera e que permite viver, eu gosto. Dos outros projetos acho que desisti por
enquanto.
Não gosto do que escrevo. Nada presta e não tenho ideia de por onde
começar. Nem a nova ortografia do português aprendi ainda. Sinto que desaprendi
a usar vírgulas, escolher temas, dividir parágrafos, usar pontuação e tempos
verbais, que não consigo me expressar e sinceramente, não tenho nada a dizer que
valha a pena ser registrado.
Tenho bebido muito, muito, muito para o meu padrão,
daquela pessoa que não bebia nada. E entendi, finalmente, aos 32 anos, o porque
as pessoas bebem. Os tolos acham que é para se divertir, os viciados, para
esquecer. Na minha verdade é que os adultos bebem apenas para suportar a
realidade do entendimento de solidão.
Tenho assistido Doramas. Um ridículo
reconfortante, preciso dizer. Comecei há dois dias e posso dizer que é viciante.
Obviamente não entendo nada de coreano e só disponibilizaram dublado, o que torna
mais ridícula ainda a minha nova distração. Por falar em coreano, meu inglês
permanece péssimo, mas melhor do que antes.
E o seu aprendizado no Alemão, como anda?
Tenho tido dias difíceis, procurando muitas respostas. Final de semana fui sozinha para uma
cidade próxima. Sentei em uma cafeteria. Devia ter levado um livro e um fone de
ouvido, mas o momento reflexivo solitário não estava nos meus planos. As pessoas
olham com pena quem senta para comer sozinho por algum motivo.
Reparei um pouco
nelas. Elas estavam acompanhadas e mais sozinhas que eu. Eu gostei da minha
própria companhia. Até me suportei como há tempos não acontecia. Queria aqui dar
um conselho de grande valia sobre isso mas não sei quando vou conseguir fazer
isso novamente. Queria dizer que adaptação ao novo estilo de vida é delicioso. Mas
tudo é novo e não sei ainda se será meu novo estilo de vida.
Tenho treinado mais mas me alimentado pior. Não consigo seguir mais minha dieta, tenho tido vontade
de açúcar. O que faço com essa ansiedade, amiga?
Estou preocupada com a minha
espiritualidade também. Parece que estou perdida. Procuro respostas para as
perguntas erradas, também por isso não as encontro, mas também não tenho as
perguntas certas e as que tenho, não posso fazer para quem pode responder. Até
tentei, mas não tive respostas. As poucas que tive vieram repletas de verdades,
algumas outras confesso que busquei nos lugares errados. Em certos assuntos,
minha amiga, só diz a verdade quem não gosta da gente ou é indiferente.
Mas conte-me, como tem passado? Como tem estado na Alemanha e o aprendizado com a nova lingua.
Quero saber da sua nova familia, do seu novo casamento.
Quero saber tudo! Me
escreva.
Acho vintage e muito mais carinhoso. Não vou te enviar essa carta por
correio como faria tradicionalmente porque hoje para isso podemos usar a
internet.
Mas cartas são mais importantes que mensagens no whattsapp, ainda que
demorem mais a chegar.
Tenho certeza que você concordará comigo que depende do momento. Ainda assim, em algum outro momento vou te ligar desesperada novamente
chorando, pedindo um ombro amigo ou algum conselho.
Com carinho;
Thaís